Michels e a renovação dos dirigentes

Michels não é tão dramático como os seus antecessores. As substituições brutais não são fenómenos frequentes, pois ao longo do processo histórico preserva-se sempre uma base dirigente, que qual constante imprime direcção à política.

As bases iniciais são regularmente identificadas como aristocracias ligadas à terra, à guerra, ou a ambas. São as primeiras minorias dirigentes que deixam traços para o futuro através da transmissão biológica. As elites iniciais foram submetidas à erosão multiforme da decadência demográfica, do celibato, da guerra, do atraso em relação às novas perspectivas de influência social. Diminuíram quantitativamente e foram perdendo a sua posição de hegemonia económica.

Tais perdas, contudo, não afectaram proporcionalmente o poder político da velha aristocracia histórica. Ela foi simplesmente obrigada a abrir fileiras a novos membros por uma razão eminentemente estratégica, uma razão de sobrevivência. Chefes enobrecidos pelas funções estatais desempenhadas, plutocratas poderosos pelos meios financeiros manuseados, comerciantes influentes, banqueiros e, eventualmente, cientistas de grande reputação, viram o caminho aberto para o círculo estreito dos dominadores.

A classe dirigente surge em Michels como uma ampliação ou recomposição da velha matriz medieval, que se alarga com a indispensável integração de altos funcionários e homens de dinheiro e saber. Em vez de rupturas sangrentas e difíceis, Michels propõe um esquema evolutivo que, partindo de uma classe nobiliária feudal chega a uma classe mista, composta por indivíduos provenientes também de classes médias. Ou seja: a classe dirigente conserva-se, abandonando a sua pureza – não é uma casta do subcontinente indiano. Esta continuidade, aos olhos do autor, chocava com a sugestão de Pareto. Michels escrevera: «O sentido vivo e mais profundo da chamada teoria da circulação das elites encontra-se na tese do renovamento perene da sociedade humana pela continuada ascensão de pessoas pertencentes aos estratos baixos e médios e sua entrada na classe dominante para substituir as antigas famílias condenadas à esterilidade física e psíquica. Quem escreve procurou muitas vezes explicar, na base de factos históricos, que não se trata tanto de uma verdadeira eliminação da velha classe dominante por meio de uma nova, mas ante de um amálgama, de uma fusão. O único caso de uma circulação totalitária e, portanto, definitiva, é o da Rússia bolchevique»
[1].

A redefinição da classe política, como se verifica, ocorre normalmente sem tragédias e mesmo nos casos de acertos provocados por revoluções, uma parte da elite dirigente passará à nova, e tal fenómeno não é estranho ao facto dos dirigentes pertencerem à mesma classe social e de manterem entre si laços de solidariedade. Mesmo entre o movimento proletário revolucionário, Michels sublinhava a direcção de elementos de classe média e os que eventualmente ascenderam da classe operária não resistiam a um inevitável emburguesamento.

Como comenta, «a nobreza sempre rejuvenesceu com a entrada de elementos heterogéneos pertencentes à classe média»
[2]. Deste modo, os dirigentes de classe média, instalados na direcção dos movimentos proletários e operários, nos movimentos socialistas, não buscariam outra meta senão a de conquistar um lugar próprio na elite política.

Quanto à ideologia também Michels é explícito: «Toda a classe nova que entra em liça contra os privilégios de uma classe já instalada no poder inscreve na sua bandeira a palavra de ordem: reivindicações do género humano»
[3]. Uma delas, que argutamente refere, é da sociedade sem classes, mas a história fornece amplas exemplificações desta regra.

A tentativa de penetrar na elite é uma constante e só contribui para a revigorar. Essa penetração faz-se com o apoio das massas, que acabam por oferecer os peões de um jogo e xadrez comandado por minorias. «Não são as massas que arruínam os dirigentes, mas sim os novos dirigentes que usam as massas para tal finalidade»
[4].

Renovação e continuidade são a regra que Michels estabeleceu no que toca à minoria dirigente, sublinhando contra o marxismo a independência desta face aos maiores grupos de poderio económico, assegurando que ela não é inevitavelmente uma serventuária da sua vontade
[5].

- António Marques Bessa, Quem Governa?

_____________
[1] Roberto Michels, Nuovi Studi sulla Classe Política, Op. cit., p. 155.
[2] Idem, ibidem, p. 77.
[3] Roberto Michels, Studi sulla Democrazie e l’Autorità, Op. cit., nota 573, p. 5.
[4] Roberto Michels, Introducción a la Sociologia Política, Op. cit., p. 101.
[5] Cfr. Idem, ibidem, p. 103.

posted by Nacionalista @ 10:39 da tarde,

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