Michels e o problema da elite

A primeira observação que se deve fazer depois do exame dos textos fundamentais de Michels – e há sempre leituras tão diferentes que os parágrafos dão não poucas vezes a impressão de terem sido subvertidos contra o autor – é esta: o seu contributo para a teoria da elite é no máximo um esboço inacabado e às vezes confuso, mesmo quando antecipa alguns conceitos ou levanta críticas fundamentadas a Pareto. Foi noutra área que o seu labor pesou e, por via indirecta, ilustrou realmente a natureza da elite e as bases da sua força. Na terminologia, o professor usa indistintamente os termos de Pareto e de Mosca, mesmo o conceito marxista de classe dominante, mas o que certamente importa é que ele pretende referir sempre a minoria dirigente nas esferas sectoriais decisivas. Assim, convém primeiro estudar as suas ideias sobre a elite para depois abordar o campo do seu exercício original.

A leitura global dos escritos de Michels revela que ele tem por adquirido a noção de elite e provada a sua existência real nos pontos de vista histórico e sociológico. As formulações anteriores de Mosca e Pareto, que cita, são aceites no essencial da sua fenomenologia, mas apresenta uma perspectiva autónoma para a evolução da minoria do poder.

Coincide com os seus antecessores em que a minoria dirigente não é uma realidade homogénea, definível num bloco. É uma realidade multifacetada e dividida. Antecipando-se a muitos tratadistas, fez a distinção entre classe dominante e classe política, recusando simplismos que interpretam a segunda como um mero instrumento da primeira. Segundo as suas verificações, os grupos económicos buscam com efeito influenciar o poder político, no entanto não existe a relação de dependência apregoada pelos marxistas e, frequentemente, os elementos plutocráticos desintegram-se por serem incapazes de reconhecer e utilizar corporativamente a sua própria força real. As elites económicas são para ele plurais e concorrentes, alinhando pelos interesses dominantes em jogo, que acontece serem contraditórios. E Pareto e os seus interesses económicos não andam longe desta conclusão. Grandes rentistas financeiros e patrimoniais, grandes interesses industriais, grandes importadores e grandes exportadores, grandes banqueiros, grandes especuladores, grandes interesses agrícolas, seriam à luz do seu Curso académico categorias identificáveis
[1].

A diversidade de motivações e interesses até antagónicos no plano económico-financeiro explicariam a dificuldade em agir concertadamente, embora a força disponível, considerada em si mesma, parecesse garantir um papel substancial no jogo político.

A visão fragmentada da elite da ordem económica combina-se com a concepção heterogénea da elite política. Nos seus estudos sobre a classe política, ele aceita a contribuição paretiana no que diz respeito às verificações fundamentais, mas concebe a classe política como uma intercepção de círculos correspondentes a três sectores: o primeiro, político, no sentido mais estritamente volitivo; o segundo económico; e o terceiro intelectual
[2]. Cada círculo de poderosos tem as suas inclinações próprias e os seus conflitos, e é precisamente nas relações entre estes três grupos que reside a dinâmica da classe política, constituída por assim dizer por três feixes de forças convergentes e conjugadas, que podem conhecer as mais diversas combinações. Michels dá uma atenção especial à componente intelectual, que não raro desfruta de uma posição predominante, pois pode surgir à frente de todos os partidos sem distinção e capitanear revoluções. Todavia também os intelectuais influentes se encontram divididos entre os que actuam nas profissões liberais e os que desempenham tarefas no seio do Estado: ainda que apresentem as mesmas qualificações universitárias têm inclinações muito diferentes[3].

Michels oscila entre uma apreciação do trabalho dos intelectuais onde ele próprio se insere e uma condenação da sua intervenção política no sentido de Georges Sorel, que lhes recrimina a inércia e a nocividade, no do sindicalista Berth, que os considera uns parasitas interclassistas, no de Léon Daudet, que os vê como escravos do capitalismo, no de um Julien Benda, que qualificando-os de clercs os estigmatiza como traidores à missão científica em que haviam sido investidos
[4]. Michels move-se num campo dividido com simpatias evidentes pela intelectualidade, como aliás o seu mestre Mosca, que esperava ser escutado por uma classe dirigente inteligente, ao jeito de Platão. Seja como for, ele sublinha a força da componente cultural na elite política e mostra, se assim se pode dizer, a sua operosidade multifacetada, o que lhe merecerá criticas excessivas. Liga-a ainda ao parlamentarismo e à exploração da pluralidade de forças políticas, na complexa teia da minoria dirigente na sua faceta volitiva, intelectual e plutocrática[5].

Simplesmente o esquema encontra-se em crise, pois para ele o fascismo italiano e o nacional-socialismo germânico já tinham provado que a hegemonia se estava a concentrar no círculo volitivo, ou seja, na vontade de poder, no elemento político, em prejuízo dos componentes económico e cultural
[6].

Esta dinâmica mostra que o modelo de elite é susceptível de se modificar com sortes alternativas para cada componente. E ele distingue pelo menos dois tipos históricos, acessíveis à observação: a elite que domina as democracias liberais e a que dirige os sistemas autocráticos.

Na aparente diversidade de forças políticas das democracias, Michels descobre uma multiplicidade de elites políticas, «que disputam o poder sob a forma de partidos políticos dirigidos por um estado-maior especial»
[7]. A rotação é a regra e este jogo dá oportunidade a cada secção da elite de chegar à máquina do Estado. A manutenção no poder é breve e as elites opositoras desfrutam da garantia de constituírem uma alternativa reconhecida. É oportuno notar que este colaborador de Weber evita frontalmente entender os partidos políticos como uma forma de estratificação política, ainda que o pudesse fazer, pois tinha-os anteriormente descrito como organizações de classe. O poder, como princípio estratificante, não hierarquiza partidos na ordem política, antes impõe uma divisão entre elites e massas, fortes e fracos[8]. A luta entre os partidos pelo controlo do poder decifra-se, na sua sociologia, como uma luta entre elites que se servem dos partidos para chegar às posições eminentes.

O arranjo democrático de elites concorrenciais, em condições de arena, suscita-lhe desconfiança e atribui-lhes algumas debilidades tais como a insegurança, a perda de tempo, a falta de preparação dos dirigentes, a ausência de honradez na condução dos assuntos públicos. E tais carências, difíceis de superar no sistema, salientam-lhe a vantagem de um outro tipo de elite, única e forte, de tendência antidemocrática, que com êxito adia as expectativas de alternância que legalmente acalentariam as outras elites partidárias. A elite única governaria então com liberdade e amplitude, tendo de enfrentar o ressentimento das elites afastadas do círculo do poder a título definitivo. A própria concepção de partido político de elite traduz a importância que ganhara a concepção de um governo aristocrático na análise da conjuntura. Michels entendera que para lá dos partidos clássicos, depois da Primeira Guerra Mundial surgira, no teatro europeu, um novo tipo de partido e mostrou que a diferença relativamente aos antigos se encontrava na direcção, que é integrada por uma elite antidemocrática. Feita a unificação da elite política não se exige mais que um salto do partido para o Estado.

Se a sua simpatia se inclinava para estas novas aristocracias socio-políticas, também é certo que soube ver os limites que elas teriam. Conclui que se debateriam entre a vontade de integrar massas cada vez maiores, de forma a impressionar pelo número de filiados, e o impulso de defender a coesão de uma porção restrita de homens determinados e qualificados, aplicando mesmo numerus clausus ao partido. É evidente que a importância das massas, do seu apoio e consentimento, se torna para os novos partidos um princípio a ter em conta, porque como descobria Michels, «a elite já não pode conservar o seu poder sem o consentimento explícito ou tácito das massas, de que depende de muitas formas»
[9]. E a necessidade dessa aprovação determinará em muitos parâmetros a rigidez e a flexibilidade da minoria dirigente. O pêndulo – como escreveu – oscilará entre as necessidades de avolumar os filiados a ponto de coincidirem com a população e a vontade de manter a homogeneidade, que é um penhor da força da própria elite partidária[10].
- António Marques Bessa, Quem Governa?
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[1] Cfr. Roberto Michels, Introducción a la Sociologia Política, Buenos Aires, Editorial Paidós, 1969, p. 113.
[2] Robert Michels, Nuovi Studi sulla Classe Política, Dante Ahghieri, Roma, 1936, pp. 150 e sgs.
[3] Idem, ibidem.
[4] Idem, ibidem.
[5] Roberto Michels, Introducción a la Sociologia Política, Op. cit., p. 111.
[6] Idem, ibidem, p. 111. O componente intelectual requer, para se afirmar, poder e dinheiro (ibidem, p. 105).
[7] Idem, ibidem, p. 112.
[8] O seu conceito de partido é tributário explicitamente de Max Weber, que cita como autoridade. Cfr. Idem, ibidem, p. 125.
[9] Idem, ibidem, p. 141.
[10] Idem, ibidem, p. 142.

posted by Nacionalista @ 1:32 da manhã,

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