Pierre Gemayel: três cenários e uma evidência

Por Rodrigo Nunes (E-mail: bf_europa@yahoo.com)

O recente assassinato de Pierre Gemayel, cristão maronita, ministro da Indústria no actual governo de Fouad Siniora e membro do partido Kataeb (a Falange) foi apenas mais um de uma série de crimes selectivos que tiveram por alvo altas figuras libanesas, o mais célebre dos quais terá sido o do antigo primeiro-ministro Rafiq Hariri. Neste caso recente, como em anteriores, apresentaram-se imediatamente como prováveis responsáveis forças ligadas, directa ou indirectamente, ao regime sírio, apostadas em eliminar as personalidades libanesas que se oporiam à influência de Damasco sobre o país. É apenas uma possibilidade; não é a única. Existem três grandes cenários distintos dignos de serem considerados.

Cenário 1: responsabilidade síria

Nesse primeiro cenário a ideia subjacente será a da simples aniquilação por Damasco de mais uma figura do regime crítica da influência síria sobre o Líbano, país considerado, na circunstância, fundamental para os seus interesses estratégicos. Para além disso surge também por detrás desta conjectura a possibilidade de estar o plano da ONU de criação de um tribunal para julgar os suspeitos do assassinato de Rafiq Hariri. Naturalmente isto pressupõe o envolvimento da Síria nesse primeiro caso e a interpretação desta nova ocorrência como uma acção (que parece despropositada) contra essa intenção da ONU e aqueles que no governo libanês a pretendessem ratificar.

Mas um suposto envolvimento da Síria levanta alguns problemas que de momento serão contraproducentes aos objectivos políticos do país. No mesmo dia em que Pierre Gemayel foi morto o governo sírio havia conseguido um importante triunfo diplomático com o retomar das relações com o Iraque e corria nos bastidores da diplomacia internacional a ideia de que estaria para breve o reconhecimento por parte dos EUA do papel fundamental do país na estabilização da situação iraquiana, conferindo à Síria uma posição importante na actual geopolítica da região.

No final, o ónus da suspeita do envolvimento sírio poderá ser particularmente prejudicial aos interesses nacionais, sério golpe no objectivo de romper o isolamento internacional.

Cenário 2: o Hezbollah

Um outro cenário apontará para a possibilidade do envolvimento do Hezbollah na morte de Pierre Gemayel. Aqui a questão teria de ser compreendida no âmbito mais alargado das novas reivindicações políticas do Hezbollah na vida do país. A verdade é que a extremada intervenção israelita no Líbano permitiu uma «vitória moral» a este movimento islamita, que conseguiu sair da situação com a imagem reforçada em muitos sectores da sociedade libanesa, mesmo para além da população xiita. Foi, no final, o Hezbollah que surgiu como única força libanesa disposta a defender o país da actuação israelita, causadora de uma autêntica razia entre civis. O novo estatuto que a máquina de guerra israelita assegurou ao movimento esteve na origem das reclamações de maior poder político do Hezbollah que culminaram na resignação de ministros seus ou próximos do movimento e nas declarações do líder do referido partido dizendo que o actual governo de Fouad Siniora – considerado pró-americano – não representa a população e deve cair. Estas reivindicações políticas do Hezbollah também têm de ser lidas à luz do sistema político do país, herdado do período colonial e que limita as aspirações da maioria relativa xiita.

Neste caso o objectivo do Hezbollah seria conduzir o país a uma situação de instabilidade de forma a fazer cair o actual governo, na crença de que o novo estatuto popular conseguido nesta última confrontação com Israel lhe permitisse uma posterior conquista de poder.

Seria sempre uma jogada de risco já que o Hezbollah teria noção de que seria apontado como um dos prováveis responsáveis e isso acarretaria a possibilidade de ver ferido o mencionado estatuto popular conseguido na última guerra com Israel e de voltar contra si parte importante da população, o que seria danoso para os seus interesses. A ser assim ter-se-á talvez tratado de uma aposta motivada pela percepção de que o actual equilíbrio político cerceia as suas pretensões e que, pesados os prós e contras, valeria a pena arriscar…

Cenário 3: o envolvimento israelita

A terceira hipótese será a do envolvimento de Israel no assassinato. A recente ofensiva militar do Estado judaico sobre o Líbano impressionou pela sua fereza destrutiva e permitiu, como dissemos, ao inimigo Hezbollah ter saído desse conflito com uma imagem reforçada junto do povo, como única força de resistência e como principal movimento de reconstrução e auxilio às populações. Sabendo que as responsabilidades no assassínio de Pierre Gemayel seriam facilmente atribuíveis ou à Síria ou ao Hezbollah, Israel poderá ter analisado a situação como de possível ganho em qualquer dos casos, ou porque conseguiria manter a Síria isolada numa altura em que se estavam a criar as condições para Damasco assumir um papel importante na geopolítica da região ou porque a responsabilização do Hezbollah pelo assassinato de um cristão poderia dividir a população, lançando cristãos contra xiitas, e abalar fortemente a posição que o partido xiita havia conquistado para além do seu eleitorado natural (prova disso continua a ser o apoio de algumas personalidades cristãs, a mais destacada das quais, provavelmente, Michel Aoun).

Uma das razões que explicariam a dimensão da devastação levada a cabo por Israel no recente conflito seria o propósito de punir a população civil pelas acções do Hezbollah, voltando dessa forma o povo contra o movimento xiita; a mensagem seria mais ou menos esta: «Vocês estão a pagar pelas acções do Hezbollah é ao Hezbollah que devem pedir satisfações». Assim, o «caso Gemayel» pode ser uma readaptação da estratégia ao mesmo objectivo de voltar o povo contra aquele partido.

Uma evidência

A construção de cenários diferentes, alguns conflituantes, resulta da própria natureza dos processos de prospecção e da complexidade da região. Diferentes leituras das consequências de uma mesma acção (no caso a morte de Pierre Gemayel) levam à consideração de panoramas distintos pois que os beneficiários variam conforme essas leituras; o planeamento estratégico tem sempre de lidar com a variável incerteza. No meio das especulações, e ainda que devamos compreender a importância de considerar cenários diversos e o que pode estar na génese de cada um deles, o que surge evidente no Líbano é a facilidade com que o país é sujeito à destabilização, originada no seu interior ou a partir do exterior… o que surge evidente e incontestável no Líbano é que as sociedades que comportam no seu interior comunidades marcadamente distintas, historicamente e culturalmente, são muito mais instáveis e propensas à fragmentação.

posted by Nacionalista @ 6:52 da tarde,

1 Comments:

At 9:01 da tarde, Blogger Manuel said...

Existem ainda mais cenários possíveis.
No passado as mortes de personalidades cristãs estiveram sempre relacionadas com as lutas entre as famílias que dominam a comunidade.
Foi o caso dos massacres de Tony Franjieh e de Bechir Gemayel (Relacionados um como o outro? Os Gemayel chacinaram Franjieh e família, depois aconteceu o mesmo a Bechir).
Ainda hoje os clans são os mesmos: Gemayel, Chamoun, Franjieh.
Um dos assassinos apontados há uns anos, Samir Geagea, continua dirigente político.
A questão é mesmo complicada.

 

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