Quando as vítimas são os principais culpados

Um bom artigo de Manuel Serrão sobre as recentes perseguições policiais na zona do Porto - publicado hoje no JN.

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Tenho que começar por pedir ao leitor que não me interprete mal. O cronista não pode ter medo de escrever sobre situações lamentáveis e delicadas, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. É o que faço hoje, mas rodeio-me de cautela, começando por este pedido.

Na última semana dois concelhos da Área Metropolitana do Porto foram abalados por dois incidentes semelhantes um carro (portanto, dois) não respeita uma barreira da GNR, ignora a ordem de paragem e põe-se em fuga. Na perseguição que logicamente se inicia e demora vários minutos e vários quilómetros, os fugitivos só param à força das balas. Atingido pelos disparos dos guardas na sequência da operação, morre um dos ocupantes do veículo, e há quem fique ferido em estado crítico.

Nestes casos o que é costume é que só fale (ou escreva) quem se coloca incondicionalmente ao lado dos fugitivos, condenando a actuação das autoridades, com o discurso, tão fácil de aceitar, que uma vida vale sempre mais que todos os crimes do mundo. Os outros, quero pensar que a maioria, remete-se ao silêncio por pudor, nojo ou cobardia.

Acresce que este pessoal que está sempre militantemente contra as autoridades, nunca cuida de saber ou opinar sobre as circunstâncias dos factos se um polícia disparou e alguém morreu, só há uma vítima, o falecido e só há um culpado, o polícia. Há muitas situações em que as vítimas são os principais culpados.

Os dois casos desta semana suscitam-me duas linhas de raciocínio. Uma tem a ver com a opção pelos disparos e a outra está ligada ao perfil da marginalidade.

Começando pela segunda parece-me curioso observar a diferença da natureza geral dos marginais entre as Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto.

A memória de acontecimentos semelhantes lembra-me que em Lisboa o caso tipo é o de um imigrante clandestino ou descendente de oriundos de países terceiros, que anda fortemente armado e dispara sobre os guardas, quando são perseguidos depois de desobedecerem à ordem de parar. Quando são apanhados, normalmente descobre-se que fugiam por razões de peso, ligadas à grande criminalidade.

Por cá, como aconteceu ainda esta semana com estes funestos incidentes, os marginais são portugueses que nasceram ou sempre viveram na região, não andam armados e fogem à polícia numa atitude inconsciente e por razões menores, ligadas à pequena criminalidade.

Podem ou devem as autoridades utilizar procedimentos diferentes em função de uma criminalidade tipo diferente? Em teoria e na prevenção, claro que sim. Já na prática destas operações no terreno e face a comportamentos como os que vieram a lume, não se percebe como.

Também neste caso os bons prognósticos só podem ser feitos no final.

É evidente que depois de conhecido os desfecho dos casos, a actuação da GNR aparece despropositada em relação ao tipo de marginalidade em causa. Agora, antes de saber do que se trata, quando é a sua própria vida que está na balança da decisão, há que ter a coragem de reconhecer que a actuação dos agentes, com os meios à sua disposição, dificilmente poderia ter sido outra.

Se a GNR ou a PSP fossem obrigadas a ter condutas diferentes aqui e ali, porque a região só tem habitualmente pequenos marginais, estávamos perdidos.

No dia em que a GNR for impedida de perseguir quem desrespeita a sua autoridade, ou for obrigada a desistir quando os fugitivos põem em risco a vida de terceiros inocentes e a sua própria vida, então nunca mais ninguém parará numa operação-stop, nem que seja por vir só com um copito a mais. Aliás, especialmente por causa disso.

posted by Nacionalista @ 5:15 da tarde,

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